Do verbo: Influenciar (crianças)

Do verbo: Influenciar (crianças)

Durante a brilhante apresentação de Brian Solis na VidCon desse ano, onde ele explicava o conceito usado pela Altimeter sobre marketing de influência chamado de “Influence 2.0”, ele recorre à básica definição do dicionário para começar sua fala. Em um dicionário escolar desses simples, a gente encontra facilmente o que significa influência:

Influência: poder de influenciar e modificar o pensamento ou o comportamento de outrem sem o uso da força ou da imposição.

A influência é uma potência. Um poder exercido sobre alguém nas decisões do que ainda é confuso como uma compra, um voto, que roupa usar, ou ainda como Aristóteles definia: a possibilidade do ser aquilo que ainda não é, mas que pode vir a ser, o que abre a brecha filosófica para debates homéricos no Facebook com poéticas falas como: “É influenciado quem quer”, será?

A revista Crescer divulgou dados de um pesquisa feita com 2.044 pais e mães, com filhos de 2 a 8 anos, que revela alguns comportamentos preocupantes das crianças em relação à internet e influenciadores digitais. Não é segredo que canais no YouTube feito por crianças ou direcionados para o público infantil surgem aos montes, tanto quanto as polêmicas envolvidas no conteúdo compartilhado por eles. Tal polêmica se dá nas brechas que a publicidade encontrou no “branded content” e no trabalho de relações públicas que as marcas de produtos infantis têm feito intensamente nos últimos anos.
O Código de Defesa do Consumidor proíbe a propaganda que se aproveita da deficiência de julgamento e da experiência da criança, mas com o poder de criação se deslocando para o público infantil, o terreno da publicidade fica cinzento e um presente enviado pela marca para uma criança (que venha a fazer um vídeo abrindo o presente o mostrando seus detalhes para o público que a acompanha na internet), passa como liberdade de expressão e produção de conteúdo, quando exerce o poder de direcionar o desejo e a decisão de compra de quem nem aprendeu a lidar com dinheiro.
Os produtores de conteúdo “mirins” não são poucos e juntos geram bilhões de visualizações só no Youtube todos os meses só no Brasil. Eles começam cada vez mais cedo, chegando aos casos excêntricos dos fetos influencers, aqueles que nem nasceram, mas já possuem perfil no Instagram seguido por milhares (em alguns casos milhões) de pessoas.
Segundo a psicologia, a infância está dividida em três momentos: primeira (0 a 3 anos), segunda (3 a 6 anos) e terceira infância (6 a 12 anos). É na primeira infância, por exemplo que nós aprendemos a fazer imitações, sejam elas na fala, nos movimentos e é quando começam a surgir os primeiros traços da nossa personalidade. Já na segunda infância se dá o desenvolvimento da nossa identidade, bem como nossa relação emocional com o mundo. E por fim a terceira infância representa a fase social da criança, onde os gostos começam a ser definidos e a turma de amigos passa a exercer forte influência sobre o comportamento. E esse era o ponto que queria chegar: influência.
Na pesquisa da revista Crescer, 47% das crianças (de 2 a 8 anos) têm algum influenciador digital ou canal que acompanha com frequência. A pesquisa não compreendeu todas as fases da infância, mas é possível olhar para seu filho, sobrinho ou afilhado e perceber que esse número só fica maior conforme a idade aumenta. Durante toda a segunda infância quase metade das crianças já têm uma relação próxima com influenciadores digitais, no momento da formação daquela que será sua identidade e base para o entendimento de certo e errado no mundo.
Quando um desses influenciadores diz algo racista, homofóbico, violento ou que de alguma forma seja prejudicial para o desenvolvimento comportamental de uma criança, ela precisa de um grande esforço educacional dos pais para entender que o que ela ouviu é errado e receber orientações para que a criança aprenda a desenvolver autonomia nas decisões.
Mas na prática o que vemos são crianças hipnotizadas por seus tablets. 38% das crianças pertencentes às famílias pesquisadas já têm um dispositivo eletrônico. Veja:

O problema não está na tecnologia, que é um recurso importante para o desenvolvimento das novas gerações, o problema é o uso dessa tecnologia não ser assistido pelos pais e responsáveis em uma idade tão importante para o desenvolvimento comportamental e cognitivo das crianças.

Incapacidade X Autonomia X Youtubers

O Código Civil Brasileiro define como “absolutamente incapaz” toda criança até 16 anos. Para qualquer aplicação legal, até os 16 anos os pais são integralmente responsáveis pelos filhos. Mas meu viés não-cartesiano não me permite seguir essa análise sem trazer a Pedagogia da Autonomia publicado no final dos anos 90 por Paulo Freire, onde o autor apresenta métodos educacionais para desenvolvimento da individualidade e da autonomia das crianças. Faço aqui a ponte entre o Código Civil e Paulo Freire para dizer que ter autonomia não justifica ter capacidade civil. Essa autonomia costuma ser usada como argumento de permissividade de uso de tecnologia sem supervisão, tanto que 59% dos pais acreditam que os gadgets são importantes para distrair os filhos enquanto fazem suas atividades. 
Uma criança pode ter sua individualidade muito desenvolvida, bem como sua autonomia com o mundo, mas ela continuará sob responsabilidade dos pais, ou seja, é de inteira responsabilidade dos adultos assistir e orientar o uso de tecnologia feito pelas crianças. O mesmo se aplica aos pais que colocam seus filhos para produzir conteúdo na internet. A criança demanda cuidado e é irresponsável a exposição digital de um incapaz como porta-voz de um assunto (mesmo que seja conteúdo infantil) sem orientação adequada, o resultado: youtubers mirins imitando os youtubers que costuma assistir, sem compreensão adequada das próprias falas que se coloca a reproduzir, emitindo mensagens publicitárias, discursos de ódio carregados de preconceitos que a criança está começando a assimilar. Minha pesquisa para a tese de doutorado é, inclusive, que esses são casos onde o Conselho Tutelar deveria intervir se tratando de abuso de incapaz.
Repito: influência é potência e sobre as crianças ela exerce um poder muito mais nocivo do que sobre nós adultos. Por isso proibir o acesso ou a produção de conteúdo não é a solução, é preciso orientar, assistir, acompanhar e não deixar as crianças sofrendo tamanha influência sem suporte.

Por fim uma orientação universal: conheça o conteúdo que seus filhos assistem. Eles ainda não percebem certas investidas publicitárias ou com discursos de ódio, mas você sim. Ninguém melhor que você para conversar e esclarecer seu filho, bem como estimular a autonomia das decisões sobre o conteúdo que consome.

Leitura recomendada: Pedagogia da Autonomia – Paulo Freire.

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