O que aconteceu quando eu desliguei as notificações?

O que aconteceu quando eu desliguei as notificações?

Uma reflexão sobre tempo, piloto automático tecnológico e FoMO.

Dia 1 de janeiro de 2018.  A primeira coisa que fiz ao acordar foi desligar todas as notificações no meu celular.

Eu vinha de um ano cheio de redescobertas. Foi um ano que começou no fundo do poço, numa das condições psíquicas mais vulneráveis da minha vida. Eu estava um lixo. Foi meio ano para sair do modo automático e outro meio ano para retomar o meu caminho. 2017 foi do inferno ao céu. Foi o meu pior e melhor ano. Mas algo ainda me segurava na minha relação com o tempo: as notificações.

Eu cheguei a contar. CENTO E OITENTA E DUAS VEZES  em 12 horas. Bem mais que o dobro da média brasileira.

OK. Ele é minha ferramenta de trabalho e como produtora de conteúdo digital posso considerar normal checar quase 200 vezes por dia o que está acontecendo ali na minha vida digital. Seria normal, se FoMO (Fear Of Missing Out ou Medo de estar perdendo algo) não fosse considerada um problema contemporâneo. Os pesquisadores Patrick McGinnis e Andrew Przybylski, definiram o FoMO como um desejo de estar permanentemente conectado com o que os outros estão fazendo. E essa era eu.

Das 182 vezes, mais da metade se perdia em “vou dar só uma olhadinha” e – 20 minutos depois – eu estava rolando o feed do Instagram em um movimento sistêmico e ininterrupto, que já não me garantia estar prestando atenção no conteúdo que passava na tela. O que a gente fazia quando não tinha internet e nem celular?

Quem está na faixa dos 30 tem uma sorte que nenhuma outra geração terá. Fomos a última geração a viver a energia (ou o esgotamento dela) e a criatividade de brincar um dia inteiro sem uso de internet. Era um se vira nos 30 para tentar brincadeiras novas. Eu lembro que minha infância e adolescência foi marcada por temporadas: Tinha a temporada da Bets na rua (como se chama esse maravilhoso esporte na sua cidade?) a temporada do vôlei, do esconde-esconde, do tazo, do bafo de figurinhas, do stop… A vivência mais tecnológica que tive na minha adolescência foi ir à casa das amigas para assistir Disk MTV e torcer muito para que o BackStreet boys ficassem em primeiro lugar. Que tempos.

Eu tive meu primeiro celular aos 18 anos. Tava no primeiro emprego formal, carteira assinada, podia provar que podia pagar meu primeiro boleto. Era um LG, tela verdinha, COM FLIP, pré-pago que me cobrava R$0,35 por SMS.

Você conseguem imaginar um grupo no Whats onde cada mensagem custasse R$0,35?  Nem eu.

O papo, mesmo entre namorados em início de namoro era sucinto. Três ou quatro mensagens para resolver o que iriam fazer. E pasmem, as pessoas conseguiam se encontrar no local certo e na hora certa sem chamar no Whats e dizer:

Cheguei, cadê você? 

Não sou eu quem vai cuspir no prato que comeu (e come todo dia) e dizer que esse aparelho que eu carrego comigo ao qual dou a importância equivalente a sair sem roupa na rua, não é importante para mim. Mas a linha que divide importância de dependência de um smartphone pode ter sido cruzada e eu só me dei conta quando me deparei com a contagem de 182 checagens em um dia.

Já havia lido vários relatos sobre desligar as notificações e sobre como isso mudava a nossa relação com o celular, mas sabe quando você meio que não acredita? Será? Será que faz tudo isso? Mas e se eu não responder uma mensagem importante? E se meu chefe me chamar? E se…

2018 será um ano importante pra mim. Entrega da dissertação de mestrado, desenvolvimento da PASSA como a produtora que sempre foi na PF, agora como empresa que me deu um pacote de responsabilidades completamente novo. Eu preciso saber onde colocar minha energia – e definitivamente, não pode ser com notificações no celular.

Esse texto está sendo publicado no dia 1 de fevereiro de 2018. Hoje faz 1 mês que desliguei minhas notificações.

Reaprendendo a viver sem notificações

Na primeira semana eu estava completamente desorientada. A sensação é que as notificações faziam o papel da minha agenda e quando elas deixaram de existir eu precisei buscar outro recurso. Minha sorte (e virginiana que sou) foi desenvolver um daily planner (você pode baixar gratuitamente se inscrevendo na nossa newsletter) e colocar nele o que de fato seria útil para tornar o meu dia produtivo.

Pesquisei dezenas de planners. todos tinham coisas demais, até inúteis. Eu queria algo simples onde pudesse colocar meus grandes desafios do dia, meus compromissos mais importantes e estabelecer uma rotina onde eu estivesse no controle. Não queria mais ter um dedo indicador digital e apontando o que eu esqueci, queria eu mesma ter o controle do que era possível fazer no dia e ter claro o meu tempo de trabalho.

Missão cumprida, mas ainda tinha um problema.

A comunicação com as pessoas

Eu decidi cortar pela raiz minhas notificações – e não avisei as pessoas. (tá de parabéns)

Os primeiros dias foram desencontros atrás de desencontros. Respondia mensagens horas depois e tive até que estabelecer um meio de comunicação rápido para assuntos importantes, que foi solucionado em partes com o Gtalk. Digo em partes, porque a gente se acostumou a viver em tempo real na internet. Com 182 checagens no celular, seria bem óbvio que eu te respondesse em, sei lá, no máximo 5 minutos?

A cada 5 minutos eu estava ali, travada e hipnotizada em responder, olhar uma foto, responder mensagem de novo, chamar alguém que há tempos não falávamos, curtir a foto de alguém… não tinha fim. No primeiro dia de trabalho sem notificações eu não vi o dia passar. Fiz tanta coisa, coloquei tanta coisa em ordem, que cheguei a pensar:

Nossa, como eu consegui fazer tudo isso em um dia? 

O FoMO tinha simplesmente ido embora quando eu determinei que as notificação não iriam mais me atrapalhar. Eu pude fazer o que eu planejei, o que esperar terminar naquele dia e quando deu 17:40 eu tinha terminado tudo.

O segredo não está em desligar as notificações, mas em ter uma estratégia conjunta que envolver planejamento, determinação e (que faltou no meu caso) colaboração.

PLANEJAMENTO: Planeje seu dia e o que você quer fazer. Nada mais, nada menos.

DETERMINAÇÃO: Desligue as notificações e esteja determinada a não se importar com o que pode estar acontecendo.

COLABORAÇÃO: Avise as pessoas mais próximas e que dependem de você para resolver problemas ou tomar decisões. Crie “bolsões de tempo” para que você possa checar as mensagens dessas pessoas e estabeleça a regra da importância que basicamente é: “se não der pra resolver sozinho, me liga”.

Pra mim isso está funcionando em modo beta ainda, também estou reaprendendo a viver sem notificações. Foi só o primeiro mês sem notificações e eu espero ainda mais dos próximos. Recomendo fortemente que você teste pelo menos por um dia, não custa nada e o máximo que pode acontecer é você reativá-las no dia seguinte.

 

Escrito por el / 1116 Visualizações

1 Comentario

  • Luciana Dias 5 de Fevereiro de 2018 às 01:33

    Amei! Adotei esse método no ano passado, sou professora e quando entrava na sala de aula, colocava o celular no silencioso e guardava na bolsa.
    Depois de algumas semanas me senti liberta dessa coisa frenética que se chama “rede”.

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