Influência e Racismo: A menina pobre e a menina negra

Influência e Racismo: A menina pobre e a menina negra

No início dos anos 90 eu morava no Jardim São Francisco em Londrina, bairro que morei por quase três anos, o que foi muito para a vida nômade que eu, meu irmão e minha mãe levávamos. Era 1991, ano em que eu ingressaria no ensino fundamental e eu acabava de entrar na primeira série na escola do bairro.

Sou péssima para fazer amigos e a vida nômade da infância explica parte desta falta de tato sobre amizades, mas lá conheci a Cecília, que em pouco tempo se tornou minha melhor amiga. Minha infância não foi a das melhores quando o assunto é dinheiro e hoje, com uma filha e marido para dividir as tarefas, com dinheiro para pagar todas as refeições, e passando perrengue, eu fico me perguntando COMO minha mãe conseguiu nos criar, alimentar e educar? Isso é uma grande incógnita que eu não consegui decifrar.

Cecília era uma menina negra, a única de pele retinta e cabelo crespo da sala. Ela era mais alta que todas as outras e conhecendo a história de Maya Angelou, fiquei imaginando a semelhança física com a Cecília. Éramos um grude. No recreio, nos trabalhos em dupla e nas tarefas. Foram 30 anos para entender porque éramos só nos duas. Eu a menina pobre, ela a menina negra. Nosso mundo era perfeito, eu tinha minhas dificuldades, elas as dela, mas a gente se entendia.

As notas da Cecília era sempre mais baixas que a minha. Ela demorava mais para ler, demorava mais para escrever e eu não entendia o porquê. Mas me lembro de alguém perguntar porque eu fazia trabalhos com a Cecília, se ela tinha notas ruins e se eu não tinha medo de ter notas ruins? Eu não tinha resposta, mas entendi ali que não devia ser amiga dela e nos afastamos pouco a pouco. Ela ficou sozinha e eu também.

A vida nos levou para caminhos diferentes. E quando estava na terceira série, lá fomos nós nos mudar de cidade (de novo) e eu não faço ideia de onde esteja a Cecília e que caminho ela percorreu. Só sei que as oportunidades não foram as mesmas.

Pessoas brancas pouco entendem sobre racismo e a culpa é toda de nós mesmo, pessoas brancas. Nos permitimos aceitar o privilégio como normal e o preconceito também. A gente não se permite aceitar que a cor da nossa pele ajuda a seguir em frente e, mesmo que o gênero possa ser uma barreira, ainda sim será uma barreira a menos se comparada à uma mulher negra.

Recentemente uma onda de takeovers em perfis de Instagram e Linkedin tomaram conta do meu feed. Pessoas brancas dando seu espaço digital para que pessoas negras pudessem falar para suas audiências. Boa ideia, não? Mas os relatos mostram que as pessoas brancas que emprestaram seus perfis perdendo seguidores, perdendo engajamento porque ninguém parou pra pensar que o palco não é nada sem uma platéia disposta a ouvir. O que vi, foram pessoas brancas enaltecidas por suas posturas salvadoras e pessoas negras sendo responsabilizadas pela queda do engajamento.

E tudo que ouvi daquela pessoa nos anos 90 fez sentido. Pessoas brancas não querem dividir espaço sem nada em troca. E hoje elas querem ser responsáveis por salvar o mundo do racismo que elas mesmas criaram, querem ter os louros de uma luta provocada por elas. E eu, no meu lugar de pessoa branca, só tenho vergonha. Vergonha dos meus pares que usam seus espaços de alcance para se portarem como salvadoras. E para esses pares eu tenho uma recomendação que veio de uma colega negra:

“Dar espaço e oportunidade para uma pessoa negra não é motivo de post motivacional na internet, é obrigação e correção histórica.”

Antes de apertar em publicar, se valha da máxima: ninguém se importa com a sua síndrome de salvador. E quando o assunto é antirracismo é melhor agir do que postar.

O episódio 002 do Dia de BRUNCH é dedicado a falar sobre o racismo no mercado de influência. Com participação de Ale Santos, Karla Lopes, Murilo Araújo e Nataly Neri, a conversa entra em aspectos financeiros e emocionais da influência.

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