Imaginários narcisos: Pugliesi, BBB e a Sociedade do Espetáculo

Imaginários narcisos: Pugliesi, BBB e a Sociedade do Espetáculo

Este artigo foi publicado originalmente no UOL Economia.

O jogo digital das imagens reais e imaginárias e seu impacto nos turistas japoneses que visitam a cidade de Paris criou um fenômeno curioso, que posteriormente veio a ser diagnosticado como um distúrbio psíquico chamado “Síndrome de Paris”.

O gatilho que desencadeia esse distúrbio é o conhecido meme da internet expectativa x realidade e a idealização que muitos turistas fazem da cidade, que se descola quase em sua totalidade do real.

Um dos sintomas dessa síndrome, inclusive, se dá na compulsividade em registrar tudo que se vê pelo olhar das lentes e não na própria memória: praticamente uma otimização de imagens que o turista prefere que estejam registrada digitalmente (porque a lembrança física não é das melhores).

Mas o que é real na internet?

Imagens não são apenas reproduções daquilo que vemos. Elas são modelos editados com muito cuidado em algum dos milhares de apps de edição disponíveis até para os mais simples dos smartphones. Em seu livro No Enxame, o filósofo Byung-chul Han, bebe da psicanálise e da semiótica ao evidenciar que tantos filtros e edições digitais fariam a conhecida tríade lacaniana do real, imaginário e do simbólico passarem por uma reconstrução radical: o que é real na internet se não o que alguém imaginou, editou e publicou?

É nessa construção de imaginários narcisos que mora grande parte de outro fenômeno midiático, polêmico e que representa a potência das imagens editadas: os influenciadores digitais, figuras que habitam o epicentro das notícias baseadas nessa dilaceração da tríade lacaniana, que oculta o que é realidade em busca de imaginários perfeitos.

Jonah Berger é um autor aclamado quando o assunto é hitar na internet (ou bombar, como os mais antigos dizem). No livro Invisible Influence, o autor explica que uma das forças que a influência exerce sobre as pessoas está na imitação.

E vamos concordar que ato de seguir alguém na internet se tornou o nosso mecanismo de imitação preguiçosamente perfeito. Recebemos tudo no feed, não há nem o esforço de procurar. Isso vem nos acostumando mal. Nos faz (quase) perder a noção do que é real ou fruto da imaginação alheia.

Há de se reconhecer que a mídia digital formou um contingente de compulsivos por “presença digital”, ameaçando a própria existência do significado de representação, porque estamos todos os dias, representando quando escolhemos o melhor horário para postar, o melhor dia da semana, a melhor pose ou o melhor textão de desabafo ou superação.

Sair do script para a improvisação pode ser fatal

Mas ainda que essa ditadura da transparência habilite esse desejo de compartilhar tudo em nossos confessionários particulares, ainda serão fragmentos que representam quem somos.

Num Reality a condução muda. Como disse Tiago Leifert na final histórica do BBB 20, um influenciador perde duas coisas ao aceitar um convite para estar num BBB: sua privacidade e o controle sobre a narrativa representativa que construiu na internet. Sair do script para a improvisação pode ser fatal.

Gui Debord, autor de A Sociedade do Espetáculo, livro obrigatório para quem quer compreender como chegamos ao desejo de controlar nossa representação em forma de espetáculo midiático, fala que o produtor do espetáculo não desejaria chegar a nada que não fosse ele mesmo.

Feeds organizados são espetáculos digitais que seguem o scrip de ponta a ponta da narrativa que um influenciador quer representar. Preset, tags, atitudinal, tudo cuidadosamente criado para se transformar em um objeto-propaganda.

Nos Stories, a narrativa é mais improvisada, se permite ser tosco, contando histórias a partir de fragmentos de até 15 segundos, ou em até três stories como as agências costumam pedir nos #publis. Mas é exatamente na improvisação que mora o perigo de perder a condução perfeita da narrativa.

A interpretação dessas cenas disponíveis por não mais que 24 horas podem destruir imagens, cancelar contratos e descortinam o que é preciso ser dito: aceitamos os feeds organizados como o real, todo o jogo da imitação mascara que boa parte do que acreditamos é na verdade, fruto da nossa imaginação.

Cancelamos as pessoas porque projetamos a perfeição dos feeds organizados naqueles que o fazem e perdemos a capacidade de compreender o que nos influencia.

A “boa” influência torna-se um fardo

Por outro lado, alguém que produz imagens com o objetivo de influenciar uma compra ou um comportamento precisa conhecer o peso da influência – e talvez more desse desconhecimento o que divide a boa da má influência. E 99% das pessoas que dizem querer ser influenciadores nem se quer imaginam que precisam se preocupe com esse fardo. E que fardo.

Quando uma influenciadora faz uma festa em casa, em plena escalada de casos de COVID-19 no Brasil, especialmente na cidade que ela mora, como no novo “case Gabriela Pugliesi”, isso diz muito sobre a responsabilidade que ela dá para o “trabalho” de influenciadora.

Diz sobre o objetivo que ela tem em compartilhar fragmentos midiáticos de uma vida que, no final do dia, passa ser a relação influenciador/influenciado: inspirar uma imitação tóxica até para os mais fortes.

Influenciar é exercer uma força com poder de conduzir o comportamento em outras pessoas. Em tempo de pandemia, também falta responsabilidade sobre o peso do fardo da influência. Falta, também, respeito.

Só que respeito é o alicerce de quem busca trabalhar na esfera pública. Quando não há respeito, não há nada e se alguma @ não está disposta a carregar esse peso e ter respeito com a própria audiência, provavelmente escolheu a carreira errada.

Mas como dizem por ai: foda-se a vida.

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